2023. 100x100. Tinta acrílica sobre tela.
Série Devir
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Na Tate Modern, em 2006, vi Whaam, o díptico de Roy Lichtenstein. Nesse contacto, fui despido de alguns preconceitos e compreendi que o acto de pintar forma a uma cor eleva a composição representada a um amplo espaço de reflexão e significado. O compromisso e a meditação no método de pintura do preenchimento cuidando cada forma na sua individualidade, na aproximação, remetem para um estado de contemplação e calma que colide com a interpretação amplificada de uma vinheta, contendo uma explosão em cenário de guerra, anulando-a.
And yet… em Abril de 2012, em Luanda, alguém afixou a impressão de um comic de Silver Surfer na porta do escritório onde operava o Movimento X. Ao momento, ocorreu-me pintar a reprodução dessa imagem num dos quadros do corpo de trabalho que realizava. O impulso foi contido, não aconteceu. Contudo e tanto, a chama não se apagou na projeção do desejo de o vir a fazer no futuro.
Os guinchos, risos e vozes das crianças a brincar no recreio aqui ao lado foram substituídos por tubos de andaime batente, rebarbadoras que serram ferro e martelos pneumáticos que reconstroem sem término o muro da escola aqui na rua. Neste estúdio, no outono de 2015, pintei em catarse. Um processo de libertação de raiva, incompreensão e desespero tão violento que partiu sem conserto a grade de madeira. A tela resultante do que considerei ser uma terapia seria então publicada com o nome de Nemesis e ficou reservada com o escrito no verso: –“ficou por resolver começou a chover”. A base de Nashi.
Pintar um negativo era um projeto reservado para o culminar do ciclo de trabalhos identificados como Devir. Pintado na vertical, Nashi é um negativo. Um objecto photo-graphico que na sua inversão se revela unificado.
Na profundidade Atlântica, neste mesmo momento, Nashi, uma cria de baleia azul na cadência do nadar movimento eco advente do corpo de sua mãe, acorda para a consciência da interconectidade de um planeta que é Ela, viva, suspensa no infinito azul.

Últimas semanas da 3ª edição da 100x100. Não perca a oportunidade de ver as obras de Aguabel, Alexa Jesus, Armando Luís, Arnalda Maia, Bruno Marques, Cézar, Colaço, Cristiana da Silva, Daniela Reis, Devir, Diana Barra, Diana Matoso, Elena Sanmiguel Urbina, Inês d'Espiney, Isabel Pena, Isabel Soares Carvalho, Jaime R Ferreira, José Coêlho, Koki Varela, Laura Lianes, Lenon B, Lucas Almeida, Madalena Braddell, Malgorzata Pawlikowska, Maria Papa, Martîm, Mónica Silva, Patrícia Mariano, Patrícia Matias, Patrícia Reis, Paulo Ponte, Pedro Goes, Pedro Palrão, Rita Grancho, Ritaspalma, Roberta Rag, Rute Coelho, Sam Abercromby, Sofia Maciel, Tanya Fryer, Tomás Serrão, Totonho, ViAndare e Violeta Lisboa nesta exposição coletiva.