13 de janeiro de 2017

Perguntas e Respostas


As perguntas que se seguem foram afiadas por Katila Vilar na sequência do encerramento da exposição O.F.F.365. A ela agradeço e a quem interesse respondi. Fica também entregue a liberdade de quem tiver alguma questão que deseje ver por mim respondida que em boa fé o faça.


1- A arte contemporânea procura entender o presente, sendo que este é cada vez mais fragmentado e mutante. Neste contexto, existe uma vastidão de variedades de oferta, não havendo como outrora, uma linha de raciocínio (diferentes correntes). Esta existe e influencia o modo como percepcionamos o mundo, mas como ele se encontra numa mutação extremamente rápida, a arte é uma amálgama de propostas.
Neste contexto, como vês tu a arte contemporânea? Como vês tu o teu processo Devir também ele mutante e onde é que tu te inseres? Não lhe faltará a consistência de uma investigação mais sólida? 

A tua conduta de só estar atelier assentando a comercialização da tua obra através das tuas redes mais próximas não será também saudosista de outros tempos em que o desenvolvimento da arte estava sob a alçada de mecenato (como se presenciou com a Soma ou com o Ovo em Luanda)? Não te faz falta uma pesquisa mais aprofundada como aqueles que reflectiam e se inseriam em movimentos artísticos?
Evito convencionalismos, ismos e etiquetas e vejo a contemporaneidade como o agora. A prática da actividade artística ou qualquer outra reflecte na sua actividade um contexto social e individual, um passado e um presente, desejos e intenções. Vidas. Somos contemporâneos uns dos outros, com a imediatez do acesso a informação global "fragmentamos-nos" pela diversidade, pela multiplicação influenciamos-nos em permanência. Dilssolvemos-nos mas, existe sempre identidade, seja de um artista main stream cuja arte é a reflexão conceptual e gestão de projecto ou uma idosa senhora que no seu tempo pinta e partilha as suas aguarelas. Nunca a palavra contemporâneo foi tão vasta no seu conteúdo e simultaneamente, nunca fomos submetidos a tanto ruído e dispersão. Nunca o livre arbítrio foi tão pertinente, bem como, a gestão de tempo com base tomadas de uma posição, de reflexão sobre que direcção tomar num oceano de informação com correntes controladas.
Como corpos celestes, cada criador tem a sua identidade, o seu peso, dimensão, velocidade de rotação, órbita e consequente influência sobre os demais, um sistema em equilíbrio. A Terra não compete nem com Vénus nem com o Sol, mas influenciam-se em permanência e no seu desenvolvimento estão, desde a génese, ligados. Ao contrário do que nos é incutido desde cedo, somos incomparáveis, unos e únicos. A educação é basilar. A vida não se pode reduzir a uma formatada corrida de apostas no sucesso, postas ou campeonatos. A diversidade, a unicidade e a origem são universais. Na óptica da história de arte, as correntes são chaves importantes: pelas novas propostas que abriram, como legado histórico: social, comportamental e psicológico, pela entrega e reflexo vivencial que cristalizaram, pela mestria e excelência que deixaram enquanto legado humano. Por exemplo, o cubismo, foi um reflexo da integração do cinema, da fotografia, do desenvolvimento da antropologia, um reflexo de modernidade que gerou novas formas de observação estética pela análise da multi perspectiva. A perspectiva do outro. Convém reflectir na observação do seu legado que, por exemplo, Picasso, Braque, Miró ou Souza Cardoso não faziam logins em redes sociais nem comandos de flat screens de controlo de massas. Fora da caixa, eles eram a sua rede social na pele, no acordar, no comer ou não, no beber da fonte, na escrita e na partilha conjunta debateram profunda e elevadamente os seus movimentos e produção. Aos nossos olhos, o resultado foi avassalador e por eles continuamos condicionados por uma comparação sem sentido. Viveram, provaram e comprovaram-no biológica e directamente. Os seus legados são viagens materiais e espirituais a outra dimensão da vivência humana. O tempo era maior, o ar mais puro, os dias corriam no vagar da carta e os estímulos, embora imensos, não se comparam em nada com os nossos volumes de acesso a informação e processamento da mesma. Foi um enorme salto a invasão digital e embora nos adaptemos rapidamente, ficaram mazelas na mestria, na excelência, na entrega e nos estudos que abriram portas para os meios de execução optimizada, para a eficiência industrial, para a segmentação competitiva de um mercado mediatizado que afastou da essência.
O processo devir reflectiu diversidade. Um espelho meu na passagem. Devir és tu, quem sinta, não um eu isolado. Um composto de multiplicidade de informação e estímulos que me impactaram e derivam em experiências plásticas. Impulsos e provas de superação pessoal. Na diversidade, na velocidade, na adaptação analógico-digital, no acesso a informação, no contributo e análise de uma globalização de reflexos culturais vejo o meu percurso como o desenvolvimento de um corpo nuclear de trabalho que se conseguiu equilibrar na multi tarefa da permanente adaptação a espaços e materiais por um lado, por outro, o assumir de uma forma de pesquisa, de auto descoberta e livre formação "em mutação e extremamente rápida". Uma "inconsistência" consistente é exigente visto que cada exercício é sempre único na adaptação aos materiais que integro e assumo, nas estéticas e composições que criei com a flexibilidade que me fui impondo. Habituei-me a viver um atelier "colectivo" onde abstracção, letrismo e ecletismo coabitam com forma e retrato, onde a fotografia casou com a pintura, um local onde as diferenças têm espaço por complementaridade. O compositor recorre à sonoridade de vários instrumentos para que nos diferentes andamentos, as suas emoções, a sua opera, tempos e ritmo estejam em concordância consigo e, por norma, acessíveis à interpretação do ouvinte. A minha sinfonia, nos seus vários actos, é o reflexo colorido por diversos instrumentos e a melodia é reconhecida na distinção, na ligação dos pontos, no inesperado resultado da contaminação entre materiais, no esforço e na adaptação a cada momento. Neste contexto é necessário ter uma vocação para estar em atelier, de gostar da experiência, mas parece-me redutor afirmar que "só estou em atelier". O trabalho de laboratório é necessário, exigiu-me método durante o ano de 2015 e inícios de 2016 devido ao compromisso diário da Operação Fino Feno. No entanto, sem vivência, debate e influências, mesmo consistente, seria estanque. Estéril no seu conteúdo e forma. Evito esse hermetismo. Apela-me a  mensagem, o despoletar da química, a inquietação da dúvida, o ter de ver, o querer e a busca das respostas, a troca de posições, o reflexo e a sugestão que abre a porta. Livre. Gosto da paisagem reflexiva porque sou um vaso comunicante. Não confundir comunicação com comercialização, na medida em que, existe uma intenção de equilíbrio na composição pela busca de beleza de forma íntima e natural. Não na perspectiva de desenvolver produto artístico vendável. Muito em voga, muito em conta. Algumas das estéticas a que cheguei são claramente funcionais do ponto de vista comercial, não lhes dando continuidade imediata por assumir um fluxo de mutação, só as tornou mais únicas e exclusivas. Partilhei, não me apropriei, e, numa sociedade cuja tendência é a normalização do produto estatístico com vista ao consumo imediato comprovadamente insustentável e efémero, essa ponte sempre me pareceu uma posição válida. A arte não é um produto. Ponto. Constitui capital cultural. Cristalização de momentos irreversíveis de criação que reforçam a originalidade e a concretização, expandem a imaginação e elevam a contemplação. Na perspectiva do marchant ou galerista compreendo que seja "complicado" trabalhar comigo porque "baralho as regras do tabuleiro". Comprovei-o nos vários contactos que fui fazendo nesse sentido com diversas pessoas e instituições com quem reuni e a quem apresentei projectos. Não porque tenha mau feitio ou me seja difícil lidar com as pessoas, pelo contrário; trabalhar comigo implica reconhecer que tenho várias linguagens, estímulos e vocações que derivam num corpo de trabalho simplesmente complexo cuja elasticidade é difícil de integrar na demanda dos posicionamentos, tipologia de potenciais clientes e num micro mercado tão fechado como o nosso.
Não sou o único a assumir a diversidade, todo o artista experimenta e pesquisa, mas encontrando uma linguagem adequada a si, regra geral aprofundam-na e exploram-na ciclicamente. Em todo o esforço criativo reside uma aprendizagem, mas, a curiosidade experimental crónica de que padeço leva mais tempo e recursos e aparentemente tudo joga contra nesta posição. Luto para manter uma rota sempre no limite de cada bordo, um bálsamo romântico e "normal por optar ser artista, e logo em Portugal!". Triste ou nobre? - Não tive opção. Trabalhei em várias áreas e sempre com alegria, mas com uma vivência visual desde cedo a arte escolheu-me. Por isto, a verdade é que a realidade se alinha para que continue progredindo.
O meu trabalho, nas "redes mais próximas" de quem me conhece e compreende a "infidelidade" do meu processo, acaba por ser vendido por ter uma benevolência própria advente do esforço de integração das várias dinâmicas nos momentos de criação. Cada quadro tem um dono mesmo antes da sua concepção e esses re-encontros arrebatam-me sempre numa projecção avant. Possuo uma visão, sinto-a e depois busco-a, ou incubo um ideia durante anos que vai amadurecendo até ao momento da exequibilidade da sua realização. Futurismo? A ver. Confesso estar muitas vezes à frente do agora para poder fornecer fresco. Mesmo que por vezes pareça uma maldição ditada pela da escassez de massa crítica, ausência ética, parca educação artística, comparações e raiva competitiva que anula leituras e desenvolvimento por partilha, humor giro e lobbies, dos medos das austeridades em "nobre" horário. Pobres anzóis. Quando estou no meu elemento de criação sou abençoado, subo no contorno da gravidade, celebro vida, manifesto-a, danço a capacidade de o poder trazer. A pedra de toque do meu trabalho assenta nesses momentos, mas está profundamente alicerçada numa vidatenta, dedicada a uma tentativa de ser melhor por e para a materialização do desejo que um dia reflectirá luz no lar de alguém. Por me esforçar por reconhecer profundamente a minha essência e consequentemente compreender a de quem me rodeia com compaixão sou uma presa fácil para tubarões, não fosse eu baleia. Temos pena, mas eu de mim já não tenho nenhuma.



2- Os media e as novas TICs influenciam a arte ora com um maior envolvimento da sociedade ainda que fugaz, ora criando novas fronteiras do que pode ser chamado de arte. Beuys, Vautier ou o movimento Fluxus consideram que toda a gente pode ser "artista". 
 Portanto, o que é para ti ser "artista"? A tendência de democratização da arte ajuda ou prejudica a experiência que se tem do que é ou não é arte?

Os media e as tecnologias de informação influenciam tudo. Um minuto num smart phone: - vemos um video sobre os signos dos animais, a notícia de um atentado a um rio, um anúncio transgénico a um crédito, miséria e luxo, um terramoto que provocou um acidente ambiental da costa, um convite para uma exposição prêt-à-porter, fotografias de um quadro quase feito num atelier com pinta, o almoço do Manuel e as cuecas novas da Matilde, polegar rápido, e eu a contribuir para isto, etc. Entretanto, a realidade esvai-se, os putos crescem rápido, o precioso tempo foi, as distâncias acentuam-se, controlamos-nos uns aos outros em necessidades criadas de ter uma opinião "bem informada" longe de nós mesmo mas na mão em todo o lado. No acesso ao "tudo" a massa crítica deslaça-se por estamos controlados por muros de imenso ruído wireless. Com este cenário, nunca foi tão difícil elevar a pintura, nem tão imediato bananalizar a actividade artística. Tudo passou a fugaz e não se reflecte ou debate, compara-se no imediato. Implantou-se a concorrência em sacrifício da vivência, da ética, dos afectos. Valham-nos a verdade ambiental, os movimentos de solidariedade, os documentos e filmes de autor por estudar, os museus, os atelier abertos, as intervenções nos espaços públicos, o teatro, os livros, os passeios junto ao mar e o cheiro da terra, a contemplação na passada do caminho, a compreensão e integração do erro, os sinais senhores e a divina surpresa. Estamos ligados sim, mas desde à muito e além da net.
O desenho, o canto, a modelação e a performance são exercícios de criação essenciais ao desenvolvimento cognitivo, psicomotor e espiritual. Criar é uma característica inata ao ser humano, auxilia-o. Todo o desenvolvimento nas suas múltiplas vertentes viu o seu nascimento em processos de criação e experimentação. Mesmo que inibidas, considero sempre as capacidades de criação do próximo, o seu potencial. Gosto de o ter presente no meu trabalho, de provocar a sonolência e suscitar a dúvida no observador. Farias ou Fazes? Fizeste? Bom. Não? Tudo bem. Fica para uma próxima, mas fica.
No meu ponto de vista, ser artista é ter uma visão consciente e de forma responsável, através de um meio ou meios reflectir vida na história além da própria História. Operar no invisível sendo a indispensável seiva de uma árvore em crescimento. Receber, transportar transformando, dar o fruto e fertilizar. E gostar. Amar imenso.



3- Qual a tua relação com o EGO e a Vaidade de se considerar artista? Tendo tido a oportunidade de conviver de perto, considero que durante o processo não existe narcisismo, mas antes e depois, na tua necessidade de afirmação, existe um egocentrismo, uma eloquência por vezes até arrogante, em querer ser ouvido.

Se é o que faço como profissão, tenho a inquietação, a paixão, a necessidade e a motivação para o fazer, enquanto a realidade me der sinais de que o devo manifestar, tenho de ser honesto comigo e ultrapassando as barreiras da funcionalidade criar condições para o fazer. Já à muito tempo que não é por "vaidade" ou "ego" que exponho o meu trabalho. Amo todo o processo e a quem me dirijo, não lambo nem idolatro a minha imagem. Considerando amor próprio e sendo o corpo a directa manifestação da consciência, foi integrado como veículo de expressão porque dançando não se mente. Expor deve ser uma celebração, uma feliz consequência harmónica. Se não mostrar o meu trabalho com uma posição que acrescente valor a quem o recebe, o processo ficará incompleto. Quando chove, molha. O foco e a orientação na busca de uma visão e objectivos concretizados à custa de trabalho e privações não podem ser confundidos com arrogância que nada acrescenta. Se atingi resultados quando trabalhei em equipa, foi por ter sempre somado à equação a inexistência de hierarquia sobre delegação de responsabilidade. Todos os envolvidos têm sempre uma palavra, a sua presença e envolvimento são sempre um acréscimo directo ou indirecto. A integração e observação de dinâmicas de grupo constituem sempre uma rica aprendizagem e sem entrega, diálogo e debate construtivo não se abrem as portas de nenhuma exposição digna desse nome. As obras só ficam completas quando vividas pelo observador e não é na internet. O observador está presente no arranque; é parte integrante da energia do desenvolvimento; e, no final do ciclo, a necessária chegada. Se vir.



4- Porquê a insistência em se afirmar na "arte contemporânea" e não abordar outras vertentes menos "elitistas", como a arte social ou a arte terapia (participação social, workshops diversos)? 
Porquê tal insistência quando tem demonstrado que não tem levado a lugar nenhum a não ser o prazer pessoal e o olhar, a maioria das vezes fugaz, do espectador? Não será novamente a faceta do ego do artista? Que faz de ti tão único que seja considerado belo daqui a 100 anos?
Qual a tua relação com o mercado da arte e o que tens feito para chegar até ele? Qual o teu lugar hoje e aquele que procuras para o futuro? Quais as estratégias práticas e concretas para atingir tal objectivo?

 Já participei em projectos de formação, já administrei workshops, organizei e promovi ventos, quando acreditei nos projectos corri bastante pro buono. Assim cresci, conheci e reconheci, viajei, voltei e compreendi que posso e devo de partilhar conhecimento. Entendi que para atingir objectivos concretos de formação na área de desenvolvimento artístico precisava de estudar e aprofundar-me mais. E foi o que fiz. A experiência de ensino que tive nas belas artes de Medellin foi reveladora e uma grande aprendizagem nesse sentido. Desejo ensinar, porque está na minha essência, tenho esse dom, comprovei-o e vejo-o como um complemento essencial ao meu desenvolvimento.
Na minha experiência a internet divulga, inspira muito muitos, mas não vende pintura. Até se podem encontrar uma parceiro pela net mas anulam-se alguma magia e não é a mesma coisa. É quase sempre a energia dos originais e a sua manipulação que desencadeiam o impulso que pode eventualmente chegar à uma venda. As pessoas sejam de que círculo ou "elite" forem, têm todas a capacidade de ver e de reflectir pintura desde que anulem os seus medos e ausências e se enquadrem minimamente com a sua observação em consciência. Faço um esforço para não me inflacionar, ouvi várias vezes que não me sei valorizar, tive muitos sinais nessa direcção e quem tenta-se explorar essa fragilidade. Sempre tentei criar opções para todos os bolsos através de séries fotográficas, reproduções até t-shirts. Sei que investir num trabalho de pintura original é restrito a alguma capacidade financeira. Adoro oferecer a quem merece mas nem sempre posso e isso custa-me. Sei o valor do trabalho e tenho noção da especulação em torno do mercado de arte e fui dando quase tudo e com boa resolução e acho ser este parte do problema de "não ter chegado a lado nenhum". Financeiramente.
Claro que considero ter prazer na partilha, bem como, considerar que tenho uma posição necessária, caso contrário estaria nos trópicos a fazer morritos frescos e com muito menos roupa. Além da fixacaoproibida.blogspot.pt que funciona como uma mnemónica visual cronológica desde 2006 e duas (!) páginas no facebook, não tenho um site organizado com o meu trabalho por não ter tido nem o tempo nem os recursos para o fazer o que é um ponto fraco. Como a grande maioria dos artistas, divulgo trabalho e posições originais, dou a (re-)conhecer o que faço. Mas; - "prazer pessoal"? Prazer pessoal é passear o cão na praia na passada das ondas, é dar abraços e mergulhos com amigos, conduzir sem tempo nem destino, esquecer as selfies e fazer amor no pinhal. Sou um apaixonado por toda a actividade e empenho artístico, mas: é trabalho! É estar numa cave sem incidência directa de luz solar durante semanas sem o fim, a ouvir as puxadas de autoclismo dos vizinhos de cima escavando, estudando, avaliando, limpando, fotografando, desenhando, comunicando, promovendo, organizando, arquivando, transportando, expondo e catalogando. E centrar-me, focar-me, transmutar-me em desejos e intenções de uma vivência mais saudável que virá. Acreditar. A maioria das pessoas teriam alguma dificuldade em estar com o seu silêncio um só dia, eu mergulho durante semanas. Não sou melhor nem pior por isso. É o meu contributo e como um médico, parteira, padeiro ou um almeida, especializada mente, faço-o com uma social responsabilidade para o trazer à luz o melhor possível.
Sabemos que a manifestação criativa, as artes são maltratadas, controladas e exploradas desde à muito. Ninguém come arte, não é um bem estritamente necessário mas os templos estão cheios de "encomendas" carregadas da energia de centenas de milhares de artistas e são reforços da devoção. Porquê? Imaginar a vida sem música, sem poesia, sem a cor da criação é um lugar obscuro, cinzento e inerte. No seu livro 1984, Orwell descreve esse cenário e cabe aos artistas usar de tudo para se equilibrarem e fazerem o contra ponto.
Daqui a 100 anos não estarei por cá. Talvez seja baleia ao largo num oceano aberto, mas grande parte do meu trabalho sim. Passei a perna ao tempo através de um legado de passagem nesta volta da melhor forma que consegui. Ai durmo tranquilo e encontro o belo.
O meu lugar hoje é o de um homem com 44 anos sem filhos vivendo numa realidade exponencialmente mais veloz, com a vida de quem passou de século reverberando liberdade, com o reflexo de quem cresceu analógico e integrou o digital num abraço global, num planeta que avisa que somos o cancro e nem todos o conseguem ou querem ouvir. Um homem esperança ainda assim. Alguém que se não acredita morre. Mais um na multidão, um ponto de reflexão. Pequeno com uma consciência em expansão e um hereditário amor incondicional ao próximo e por isso magoado. Como imensos, estou na linha de fogo das contas mensais mas grato por acordar todos os dias em paz e com saúde e ser fiel aos meus princípios e valores. A necessitar de encontrar soluções sustentáveis, autónomas e inventivas. Um português solar a precisar de auxílio sem se ausentar da responsabilidade e que precisa de uma mão que o integre justamente. Preciso de quem me acredite enquanto pessoa num projecto em que acreditemos realmente. Preciso de pagar a quem devo e com lucidez reunir as condições para não morrer a fazê-lo, mas para o poder fazer até morrer; com dignidade.

12 de janeiro de 2017

Finissage




Um final é um início. Um início pressupõe o novo, um caminho, uma direcção. Que direcção a tomar? Que caminhos escolher? Será válida uma continuidade? Cortar com o projecto devir tem o sabor da ansiedade, o extenso peso da dúvida que associo a florescimento. Deverei fazê-lo? Encontrei uma linguagem compreensível? Compreendo-me agora onde nunca estive outra vez? Terei energia e recursos para o fazer? Mereço continuar a transportar a água que raramente bebo? Qual a importância de um nome e a proporção da sua (in)significância? Perdi-me no credo de encontrar? A arte leva-me ou devo eu levar a minha arte? De que serve e como serve? Serei causa ou acidente, o player ou a playlist? Reguei silêncios ou inflamei ruído? Contribuí ou reclamei? Sou o que desejo ou desejo só ser? Sou a escada ou um degrau? Ambiguidade ou poesia? Sou o feno, o ceifeiro ou o campo em pousio por lavrar? Terei sido sem ser? Foste um sonho ou és real? 
Não sabendo pergunto na recorrente esperança de ouvir uma brisa só que seja sobre feno. O fino feno.