
O João David acolhe-me na sua casatelier desde Fevereiro com
o objectivo comum de desenvolvermos a investigação artística de cada um em
parceria cooperativa e desta fórmula crescer-mos num ambiente votado à arte, à
compreensão da condição humana num constante lapidar da nossa massa crítica e
até à data, ambos continuamos munidos de um par de orelhas. Na sua força,
manifestação criativa, entusiasmo e verdade acreditei e acredito, não só ter reencontrado
um amigo para a vida, bem como, levar a bom porto a terceira edição da 100x100
em Torres Novas. É, pois, um privilégio sem precedentes, no sopé da Serra D’Aire,
comungar da devoção, o engenho, o primor de uma entrega sempre avant do Araújo
Zilhão em torno da sua mesa de trabalho, o seu lugar elemento, o seu altar. De Sol
a Sol assisto ao desenvolvimento da capacita acção de uma linguagem única
assente numa estética única e identidade inflexível em crescente
desenvolvimento, como se escrevesse para os anjos na sua linguagem, desenhos
enormes sucedem-se numa certeza que desafia a abstração por composições e
opções cromáticas que quebram a primeira análise sensorial e emocional, que
provocam reclamando espaço e vagar contemplativo. O imediatismo dissolve-se
quando se coabita com estes quadros nas paredes, porque no movimento perpetuado
da luz do dia, no nosso reflexo e reflexão as composições metamorfoseiam-se em
múltiplas leituras, fluxos e entoações que me projectam para outra compreensão
alargando consciência. O timbrar do sopro do vento nas copas, a força da serra,
a arqueologia da ancestral presença humana e a manifestação natural deste lugar
são a matéria que prima, a massa que molda em entrega monástica num continuado
exercício de alegria. Sabemos bem que algumas linguagens, propostas e correntes
surgem antes do seu tempo num choque inevitável com a sua contemporaneidade,
por conseguinte, sei que ter o privilégio de ver, caminhar com e partilhar
horas de frontal diálogo com o João David é nutrir um enorme jardim pleno de
espécies por nomear onde reina a simbiose e em cada folha desenhada ver medrar um
canteiro de desejos e emoções que na vida e pela vida se manifestam. Assim, se reforça
a posição de que uma só partitura não pode ser considerada um acto isolado. São
ensaios, capítulos, contos que se sucedem numa mesma linguagem, num dialecto
que amadurece belo e nutritivo, um caudal em expansão longe de secar por estar
escrito que num futuro desaguará. Sabemos todos também, que a negação depois de
integrada com verdade, leva à compreensão do outro que nos reflecte aprofundando
o conhecimento de nós mesmos, o que nos torna mais fortes, plenos.
Indispensáveis.
Recostado na almofada sou alumiado pela composição exposta
no corredor – Harmonia da Cooperação – que com uma nesga mínima de luz permanece
incansável a sua dança. Sorte a minha que agradeço sem esqueSer.