11 de março de 2009

Elinga


Angola está em permanente devir. Sente-se. O que foi ontem já não é hoje e o amanhã “logo se verá o que é” mas com certeza muito diferente será na certeza de um oleoso subsolo e solo, da sua cultura secularmente semeada pelo mundo, do investimento estrangeiro a nascente e poente, no embrião turístico de um imenso território e costa abençoados no berço por natureza, nas palancas em extinção, num campeonato de futebol e na ginga flexível da zungueira de todas as cores de filho á cinta dentro e fora dos musseques. E há Luanda, a única cidade que conheci e onde a Lua anda mesmo. No seu centro, na Mutamba reside a parte velha de uma cidade que nasceu e cresceu ao longo da baía. Ai resiste uma arquitectura colonialista. Portuguesa. Uma arquitectura do século XIX que me envia pelas fachadas o cheiro de Lisboa. Relembra um Estado, que também aqui, um dia quis ser Novo e que até hoje, apesar da guerra, das guerras e da maresia ainda permanece em bom estado de conservação apesar das cores esbatidas de um imperialismo decadente. E tem os dias contados. Existe um plano, ou a ausência de outro, para a reconstrução de toda aquela área histórica: - Vai a baixo! E vêm ai arranha-céus, vêm símbolos de capital, de crescimento, de futuro e de uma prosperidade com vidro reluzente, muito alumínio e luzes néon. Um “Dubaizinho” está orgulhosamente a caminho e o Elinga Teatro que ali nasceu vai cair por demolição anunciada apesar de ter sido inscrito como património em diário da República. Será um parque de estacionamento e na passada semana estreou lá uma peça. A última a ser encenada no local. “SombriLuz – Instantâneos de poesia angolana dos anos 50”. Não fui á estreia mas irei lá sempre que puder. Até cair. Porque o Elinga Teatro é o último reduto alternativo em Luanda. É o porto de encontro e segunda casa de actores, encenadores, artistas plásticos, fotógrafos, intelectuais, pseudo e curiosos bonitos. É um mito. Senti-o assim que entrei, subi as escadas, cheirei a madeira misturada com dragões (incenso repelente de mosquitos), absorvi o laranja vivo das paredes cicatrizadas, as histórias penduradas de outras vidas encenadas, os olhares frescos da varanda, o palco e a plateia, os recantos de acervos deixados por folias e correrias e um bar de conversas desconhecidas com bebidas, sorrisos e gelo do cano. No ar, a música das chegadas e partidas de uma vida comungada por todos. Amor á primeira vista existe. Existiu nesse dia e foi crescendo sempre que lá voltei porque não me soa ir a outro local.
Tenho sorte. Tive sorte. Na minha estreia estava programado um concerto. Muita sorte. Por sincronia vi ouvindo futurismo. Para uma plateia de meia centena os Next deram aquele que seria o seu último acontecimento no Elinga Teatro. Acabado de chegar de Portugal ensinaram-me tocando o que era Angola. Contaram-me várias histórias de fusão entre um passado e o futuro. Raízes, tendências, covers e revelações. Vivo, universal, world music. Fiquei e serei fã. Mais um seguinte seguidor.
Foi nesse dia que conheci o meu amigo Toy Boy. Foi quem me explicou que a varanda do edifício onde estávamos era parte (ainda) viva do história do teatro angolano. Que como ele, muitos tinham saído das ruas para integrarem projectos, aprenderem, ganharem experiência, delinearem objectivos comuns e poderem sonhar em liberdade. Crescerem. Que era assim desde 1985 mas que só em 1998, com o país ainda em guerra, nasceu formalmente o grupo Elinga Teatro que até hoje encenou mais de vinte de peças. Bebi literalmente as suas palavras e juntos brindamos ao destino que me tinha levado até ali e agora. Ambos bebemos bastante.
Nessa noite decidi que a minha terceira visita traria uma intervenção naquele espaço. E foi o que fiz. Desde esse dia fiquei atento para que me surgisse a resposta de como o fazer. E surgiu no Paredes. Em forma de past-up e como representação do meu primeiro conceito foto-graphico concebido em Angola. África.





Reencontrei-me num processo fotográfico em que optei por utilizar uma matriz de colagem. Precisava de um modelo. A primeira convocatória de uma sessão saiu furada. Fui ignorado pela ausência de dólares no processo. Na alternativa arranjei rapidamente outra modelo que reagiu prontamente á minha e á sua necessidade de criação. O resultado foi uma boa selecção de fotografias e maturidade de um conceito. Tratei toda as imagens, seleccionei uma e imprimi uma matriz. Tudo pronto. Não deu. Porque afinal ainda não seria aquela a arte final. Não tinha de ser assim. A modelo é Miss Simpatia em Angola e os direitos da sua imagem são bastante rígidos. O comité, ou lá o que é, tem em sua posse os direitos da sua imagem até ao final do ano. E não dá no dia D! Nada fácil de aceitar. Cheguei a desistir pela adversidade dos sinais que não foram mais que um teste á minha vontade de criação e energia. Intervir no Elinga passou a outro plano que desconhecia. Deixei passarem 48 horas e num terceiro momento falei com Jaqueline que como minha amiga acompanhou o processo. Perguntei-lhe se não me ajudava a completar o trabalho utilizando a sua imagem. Respondeu-me com a naturalidade de quem desde sempre já sabe que seria ela a matéria-prima do projecto que acabaria por vir a ter o seu nome: Miss Saluvo.















Miss Saluvo








Passou uma semana e voltei ao Elinga. Fiquei surpreso: as outras paredes tinham um intervenção feita pelo Toy. Cinco paineis de madeira pintadas de branco e dimensões consideráveis tinham sido penduradas em todas as outras paredes do salão de exposições onde está Saluvo até á demolição. O conceito era simples: a meio dessa noite trazer muita tinta surpresa para que na minha frente se desse uma reacção de todos os pintores e clientes presentes! Foi o que aconteceu. Num momento de criação dinâmica e interacção de todos, a minha lente captou aquela que seria uma das maiores manifestações artísticas a que já assisti e que resultaram em cinco painéis e um cartão; A Elinga Session Serie. A minha chama-se Elinguitanea e foi adquirida pelo Arquitecto Miguel Berger, as restantes, também compradas, seguem de barco para Portugal e o seu destino é o Museu da Memória em Lisboa. Agora, todos os finais de semana se continua a pintar por lá até vir festa do Adeus que foi reagendada para os dias 27, 28 e 29 do presente. Nesse dias vou projectar, pintar. E partir paredes com um pre texto.















Elinguitanea



Devir






Março de 2009. Angola. Luanda.
Devir
Photos onde estou: Toy Boy
Agradecimentos: Nikita, Tania Manuel, Jaqueline Saluvo, Ira Almeida, José Mena Abrantes, Pedro Gil Ferreira, Movimento X, Cota Carlos, Anabela Vandiane, Next e Carlos Paredes. Sem voçês na dava.
*****
Lua Cheia

6 comentários:

Ana disse...

estou maravilhada :D que coisas lindas que tens andado a fazer e tanta pessoa linda com que andas por ai :)

que bom Rui ... deves vir cheio a transbordar !!!!

Natacha disse...

Uff! Que intenso, que bonito, palavras cheias de sentido e significado, palavras ao vento, vindas daí, desse continente cor de terra...

:)

... gosto tanto!!

Lightfragments disse...

estonteante! que capacidade de mobilizar para criar!!!

absolutamete maravilhoso!!! hummm.. tu ja na voltas..

tamos juntos! :)

605 Forte by CPiteira disse...

lindo!
excelente trabalho
excelente espírito
excelente criação

e ainda conseguir explicar? Genial!

Devir disse...

Acerca do bar do Elinga mas em 1993. Very well nice!

http://www.independent.co.uk/news/world/out-of-angola-beware-the-black-pouch-pistolpacker-1502396.html

sapatinhos de verniz disse...

uau!