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24 de dezembro de 2017

Natalícia




"A obra do outro pintor estava ali, perante si, admirável, pura sem mancha, como uma noiva. Modesta, divina, inocente e simples, pairava acima de tudo. Dir-se-ia que as figuras celestiais, surpreendidas por tantos olhares baixavam timidamente as pálperas. Os entendidos, sem domínio do espanto, contemplavam esta obra de um talento desigual. Julgava-se ver na tela, a um tempo, o traço de Rafael, reflectido nas atitudes de uma inexcedível nobreza e o de Corrège insuflado na perfeição total da pintura. A sua força emanava sobretudo de uma energia criadora, que era afinal a própria alma do pintor. O mais pequeno dos objectos estava reproduzido até à saturação, reveladas e entendidas tanto as leis como a força íntima das coisas. Via-se em toda a extensão esse relevo da natureza tão fugaz que se torna perceptível apenas a um artista criador, pois aquele que a copia não consegue senão produzir ângulos. Notava-se claramente que todos os aspectos de vida exterior, transpostos para a tela, residiam, todavia na alma do pintor, e da sua fonte interior é que nascia o cântico harmonioso e solene. E o abismo que existe entre a criação e a imitação da natureza aparecia aqui com uma evidência tão vigorosa que nem a olhos profanos escapava. Era inexprimível o silêncio que, como nunca se viu, dominava e perturbava todos os presentes, com os olhos presos no quadro: nem um murmúrio, nem um suspiro."